Marcos Andrade

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Estudo de 2015 alertava para risco de deslizamento em morro de Niterói

Um estudo de 2015 da CPRM, o serviço geológico do Brasil, alertava para um risco de deslizamento, de médio a alto, no Morro da Boa Esperança, em Niterói. No fim de semana, cerca de 20 mil toneladas de terra e pedras desabaram. A área ainda está em risco. Quatro das 15 vítimas foram enterradas nesta segunda-feira (12).

Arthur, o herói de três anos de idade, resistiu por mais de 24 horas. Mas, neste domingo (11), tornou-se a 15ª vítima da tragédia. Foi enterrado nesta segunda junto com a irmã, Nicolly, de 10 meses, e outras duas moradoras do Morro da Boa Esperança.

Onze vítimas foram enterradas neste domingo (11), incluindo sete parentes da Janice. Ela perdeu a mãe e a irmã, que há tempos falava em se mudar do morro. “Ela falou que ia sair, que ela ia alugar uma casa. Era uma pedra enorme, que, se caísse, ia acabar com a vida de todo mundo. E ela falou que ia sair. Mas só que ela... Deixou no esquecimento, entendeu?”, relembra Janice Martins.

Quem sobreviveu ainda não sabe por onde recomeçar. Robson tinha uma pizzaria. Hoje não tem mais nada e precisou ser atendido pelos médicos quando viu os destroços do que levou anos pra juntar.

Dois dias depois da tragédia já é possível enxergar a rua que dá acesso à região, enquanto as máquinas da prefeitura removem os escombros. Toda essa área ainda está muito modificada pelo que aconteceu e a movimentação é restrita. 17 casas no entorno estão interditadas e os moradores estão em casas de parentes.

O Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio divulgou uma nota técnica, afirmando que o desabamento foi um processo de difícil previsibilidade.

Um estudo encomendado em 2016 pela prefeitura de Niterói, que deve ser divulgado no mês que vem, classifica a área do morro como de risco médio. "Não existia nada que evidenciasse uma necessidade... Ou, uma... Evidenciasse que pudesse ocorrer uma fissura de um maciço rochoso, que foi o que aconteceu", afirma o tenente-coronel Wallace Medeiros, Secretário de Defesa Civil de Niterói.

Mas o órgão federal, a CPRM, afirma que foi entregue à prefeitura de Niterói, em 2015, um estudo que classifica a área onde houve a tragédia como uma encosta de suscetibilidade média a alta. "Em 2015, esse mapeamento foi feito e depois ele foi disponibilizado - como todos os dados da CPRM -, disponibilizado no site, informado à municipalidade que o mapeamento estava ali disponível", fala Sandra Silva, chefe da divisão de geologia aplicada do órgão.

Às 4 da manhã do último sábado (10), a encosta coberta pela vegetação cedeu de repente. O gigantesco bloco de pedra deslizou de uma altura de mais de 20 metros, movimentando 20 mil toneladas de material montanha abaixo.

O especialista Marcelo Motta, professor de geomorfologia da PUC-Rio, que visitou o local, explica o que aconteceu: "A rocha, ela se situa em cima do maciço já apodrecido, né? O que a gente chama de intemperizado, né? O maciço tá podre. E o peso da rocha exerce uma função, feito um êmbolo, que empurra esse material sobre as casas".

Ou seja, o que se rompeu foi o solo, numa camada profunda, deslizando e trazendo junto uma parte do gigantesco bloco de pedra, que também rachou. Esse peso morro abaixo veio arrastando a terra, destruindo as casas e cobrindo a rua.

Sinais pontuais de perigo já tinham sido notados no morro. Em 2010, uma moradora teve a casa interditada pela Defesa Civil.

As autoridades dizem que o local ainda está em risco, porque existem rochas instáveis e o maciço ainda não entrou em equilíbrio. O morro que não existe mais é a imagem da dor para as famílias que perderam o próprio chão.

"Eu não tenho coragem mais de passar lá, naquele monte de barro, entendeu? Quando eu passo lá, eu entro em crise. Porque é tipo, eu tô pisando em cima da minha família todinha...", emociona-se Janice.

Sete pessoas numa mesma casa. Inclusive a Géssica, que estava com a tia quando o morro veio abaixo. "O pai dela está no hospital. Imagina ele sabendo a notícia que morreu a mãe, a irmã, o cunhado, sobrinhos e morreu a filha dele? É muito duro. Só Deus mesmo pra confortar", lamenta Cristiano da Silva Firmino, tio da jovem.

A prefeitura de Niterói declarou que não tem conhecimento do estudo feito pela CPRM, o serviço geológico do Brasil.




G1/Jornal Nacional

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