Marcos Andrade

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Paraibana viraliza com paródia sobre ser gorda, mas vídeo preocupa especialistas

Não tem como escapar da música 'Deu Onda' neste verão. O hit do MC G15 está tocando em todo lugar e também já rendeu muitas paródias na internet, dentre elas a versão ‘Magali’, criada pelo youtuber Rafinha Sanchez. O clipe relata a vida de um rapaz que não consegue entrar em uma dieta e nem buscar uma alimentação saudável. Em vez do refrão original, a música diz: "Que vontade de pavê / Eu gosto de comer, fazer o que? / Quero Lasanha". Uma paraibana aproveitou a paródia e está bombando na web. Apesar da brincadeira e do incentivo justo à autoestima, especialistas em saúde alertam para que virais como esse não estimulem pessoas a se manterem acima do peso e com uma alimentação errada.

 Ao Portal Correio, Cláudia explicou que a gravação foi espontânea. “O vídeo não foi planejado. Eu sempre gostei de postar meu dia-a-dia nas redes sociais, porque gosto de fazer meus amigos se divertirem, e como me identifiquei com a paródia, resolvi gravar o vídeo do meu jeito, com o que tinha em casa”.

Porém, ela contou que o vídeo não repercutiu somente de forma positiva. “Tiveram sim muitos comentários maldosos e outros bastante preconceituosos. Eu não cheguei a acompanhar tudo, o pessoal me mandava 'prints'. Ainda existem muitas pessoas preconceituosas e o que eu quero, ou melhor, tento passar pra sociedade, é que a gente tem que ir pela contramão e não dar ouvidos pra esse tipo de comentários”, comentou Cláudia.

O bom humor e a autoestima, de fato, existe no vídeo da jovem pessoense, mas há um fator preocupante, segundo especialistas. Principal problema da saúde pública no Brasil, a obesidade é um elemento grave que compromete o bem estar humano, afetando diversas áreas de seu organismo.

O Ministério da Saúde informou ao Portal Correio que 18,9% dos adultos brasileiros são obesos. Entre os paraibanos, o índice foi de 20%, sendo maior nas mulheres (21,8%) do que nos homens (17,7%). Questionada sobre o vídeo influenciar uma má alimentação entre os gordinhos, Cláudia garantiu que a intenção foi contrária.

“As pessoas podem até ver o vídeo de outra maneira, mas a verdade é que ele foi apenas uma brincadeira, não um incentivo a caminhar negativamente em direção à obesidade. De forma alguma. Eu sempre fui relaxada em relação à saúde, mas de uns tempos pra cá eu senti a necessidade de controlar. Fiz exames e está tudo ok. Ser gorda não significa que não sou saudável. Eu não me privo de comer nada, mas não exagero. Cuidar da saúde é imprescindível, o que muda é a forma de lidar com o excesso de peso, e eu vivo da melhor maneira possível: me aceitando e me amando assim como sou”, explica ela.

Saúde

A personal trainer Cleane Barbosa, formada em Educação Física e atualmente estudante de Nutrição, comentou sobre a repercussão do vídeo e o classificou como "preocupante". “O vídeo é preocupante, pois quando alguém assume o papel do ‘gordinho’ feliz, acaba esquecendo os malefícios que a obesidade pode trazer para saúde. Qualquer pessoa deve se aceitar, mas os cuidados com a saúde sempre devem ser prioridade. Ser feliz vai independer da obesidade ou não, porém não pode esquecer os danos que o excesso pode trazer”.

Já o personal Romário Leite alertou sobre quais problemas a obesidade pode desenvolver, comprometendo a estrutura física do corpo e limitando-o a praticar atividades aeróbicas e musculares.

“A obesidade gera um estresse excessivo nos músculos, tendões e articulações do nosso corpo, devido ao excesso de peso que o corpo tem que carregar diariamente. Além disso, ela causa desgaste na coluna, degeneração das articulações (joelho e quadril principalmente), osteoartrose, debilidade de movimentos e falta de autonomia para as atividades do dia-a-dia, como amarrar cadarços, sentar e levantar, subir escada, etc. Também pode inflamar as articulações e provocar alterações metabólicas”, alertou o professor.

Romário também frisou que a doença pode ocasionar um aumento dos órgãos. “O excesso de peso, além de sobrecarregar as articulações, sobrecarrega também todos os órgãos do corpo humano, pois eles terão que trabalhar mais, podendo, muitas vezes, aumentar sua espessura para suportar o peso”, completou.

O nutricionista Júnior Lucena advertiu sobre as doenças crônicas causadas pelo problema. “É importante destacar as doenças relacionadas à obesidade, as doenças crônicas, que podem chegar a casos irreversíveis. Quanto maior a circunferência abdominal, maiores os riscos de doenças cardiovasculares, como diabetes, hipertensão arterial, colesterol alto, apneia do sono, esteatose hepática, entre outras”.

Ele ainda destacou que dá pra conciliar a autoestima com o hábito de se cuidar. “Se aceitar gordinho e se amar não limita ninguém a não querer mudar. Tem que ter tempo para vigiar o peso e cuidar da saúde”, finalizou.

A doutora em Psicologia Social Rildésia Veloso, que também é professora de Psicologia Jurídica no curso de Direito em uma faculdade particular de João Pessoa, discorda que o vídeo de Cláudia seja um estimulante negativo para que os obesos se alimentem de forma equivocada.

“É muito pouco provável que a paródia em pauta estimule o consumo de alimentos por pessoas acima do peso; penso, contrariamente, que facilitará que não se coma por culpa, o que poderia produzir ansiedade e servir como gatilho para um consumo desenfreado. Portanto, não percebo problema na paródia, mas uma forma de inclusão social, reconhecendo que os que podem ser mais gordos são pessoas como nós, que têm desejos, sentimentos e, acima de tudo, a mesma vontade de ser feliz”, opinou.

Ela também explicou qual seria a diferença entre se 'aceitar gordo e se cuidar' e 'se aceitar gordo, mas não se cuidar'. “É preciso refletir o que é se aceitar e o que significa se cuidar. O excesso de peso pode ser um problema, mas nem sempre diz respeito a comer mais. A pessoa que não se cuida, sendo ela gorda ou magra, não se cuida, pois não se percebe como tendo importância, levando a vida sem perspectiva e agindo, talvez, inconscientemente, como um potencial sabotador de si mesma. Deste modo, a diferença radica não em ser gorda, mas em se aceitar, o que implicará maiores cuidados e, principalmente, o desfrute pleno da vida”, concluiu.

‘Rostinho Afilado’

Heloíse Desirée, editora da TV Correio, é responsável pelos projetos ‘Emagrece Desirée’ e ‘Rostinho Afilado’. As duas propostas começaram em julho de 2016, quando ela pesava 132 kg e decidiu mudar a rotina, com reeducação alimentar e exercício físico. Para promover os projetos, ela usa todo o potencial das redes sociais, incentivando as pessoas a terem hábitos saudáveis.

“O 'Emagrece Desirée' e 'Rostinho Afilado' começou em julho de 2016. Eu estava pesando quase 132 kg e me assustei. Nunca sofri grandes traumas por ser gorda. Mas eu comecei a sentir limitações físicas por causa do meu peso. Até minha autoestima estava abalada. Decidi jogar meu processo de emagrecimento na internet como uma maneira de não desistir, e foi a melhor coisa que fiz. As pessoas começaram a se interessar pelo novo estilo de vida que eu me propus. Hoje são quase 21 mil seguidores no Instagram. Diariamente posto minha rotina de treinos, alimentação e procedimentos estéticos que têm me ajudado a conquistar um novo corpo: Já eliminei quase 30kg e ainda faltam 30”, explicou Desirée.


 Sobre a repercussão do vídeo da paraibana Cláudia Pereira e obesidade, Heloíse disse que entendeu o bom humor da ideia, mas discordou de alguns pontos.

“A descontração sempre foi minha marca registrada também, e tento lidar com as dificuldades da obesidade de maneira leve, porém séria. Afinal, obesidade é uma doença, um mal que atinge grande parte da população brasileira e mundial. Eu entendi a proposta do vídeo de Cláudia, acho que ela foi super carismática, mas acredito que nem todo mundo que é gordo vê a comida daquela maneira. Muita gente gorda também tenta ter uma vida saudável. Acredito que a gente tem que tratar a obesidade de maneira séria e orientar as pessoas do mal que ela pode nos causar”.

Sobre a autoaceitação, ela continua. “Sempre disseminei o amor próprio, a aceitação, e até acho que isso não tem a ver com o peso. Vejo pessoas de vários estereótipos que não se aceitam... Muitos até dentro dos "padrões". Mas se aceitar não quer dizer: ‘Acabe com sua saúde, coma tudo, tome vários litros de refrigerante’. Quem é gordo sofre com o olhar do outro por ser visto como preguiçoso, que não emagrece porque não quer, que só come... E a realidade não é essa. A obesidade está relacionada a vários fatores. E associar, de maneira pejorativa, a comida à obesidade, acaba causando mais preconceito para quem sofre com o problema”, concluiu a editora.






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